Não, cientistas da NASA não descobriram evidências de universos paralelos

Gustavo Esteban Romero

Em vários meios de comunicação apareceu a notícia, algo surpreendente, informando que a NASA havia descoberto um universo paralelo, através do qual talvez se pudesse viajar ao passado.

Temos aqui a opinião de um especialista no assunto, Gustavo Esteban Romero, e graças à autorização de nosso colaborador Alejandro Agostinelli, reproduzimos a nota, publicada originalmente no factorelblog.

Versión de este artículo en español, aquí.

No mês de maio, circulou na mídia uma notícia falsa e sensacionalista sobre a suposta “descoberta” de um universo paralelo, onde o “tempo retrocede”. O assunto é apresentado como uma descoberta pela “NASA”. Várias pessoas me consultaram sobre isso, incluindo jornalistas do La Nación que tiveram a capacidade de investigar antes de espalhar esse absurdo. Então, deixe-me esclarecer a questão, já que é quase um modelo de como uma “notícia falsa” é gerada na ciência.

A notícia se refere a um experimento real: a Antena Impulsiva Transiente da Antártica (ANITA). Trata-se de um radiotelescópio composto por várias antenas que operam entre 0,3 e 1,5 GHz, colocado em um balão estratosférico lançado da base Scott-Amundsen na Antártica (a base está no polo sul). O objetivo do experimento, que já voou três vezes, é detectar neutrinos de alta energia. No polo sul, há outro experimento para detectar neutrinos de energias mais baixas: IceCube. Nos dois casos, trata-se de encontrar neutrinos que penetram a Terra do outro lado, interagem com o material do núcleo da Terra e produzem léptons: múons e partículas de tau dependendo da energia (são como elétrons mais pesados, ​​que vivem muito pouco e depois decaem). Esses múons e taus viajam através do gelo antártico e produzem luz Cherenkov (que o IceCube detecta) e ondas de rádio (que a ANITA detecta). A partir dessas detecções, a energia do neutrino original pode ser reconstruída. Até agora, o IceCube detectou muitos neutrinos das energias de TeV (=1 erg) e a ANITA detectou dois eventos compatíveis com os neutrinos tau de 1EeV (=um milhão de TeV). Nas fotografias, você pode ver uma foto de ANITA (caiu após o pouso), outra da base Scott-Amundsen e um esboço de como a detecção funciona.

ANITA. Um dos balões do projeto caiu ao pousar.

 

 

BASE POLAR AMUNDSEN-SCOTT. O balão ANITA foi lançado de uma estação norte-americana que está localizada quase no pólo sul geográfico, no ponto mais meridional do planeta.

 

 É ASSIM QUE ANITA FUNCIONA. O experimento busca detectar neutrinos de energia muito alta. Os detectores são transportados por sondas que partem do Pólo Sul, sobrevoam a Antártica por entre 20-35 dias e atingem uma altura máxima de 35-40 km acima da superfície.

 

O que isso tem a ver com supostos universos paralelos? Nada. E de onde vêm as notícias falsas? Daqui:

Em 2018, uma equipe liderada por um cientista da Universidade do Havaí, P. W. Gorham, publicou na revista Physical Review Letters um artigo analisando dados de ANITA e concluindo que haviam detectado um raio cósmico que produziu emissão de rádio ao atravessar a Terra. O raio cósmico seria um neutrino tau de energia da ordem de 1 EeV, embora o ângulo e as características da radiação não correspondam exatamente ao que pode ser calculado com o modelo padrão da física de partículas. O artigo está no repositório arXiv.

Logo depois, em uma entrevista jornalística, Gorham disse que se não fosse um neutrino tau, poderia “ser uma nova partícula muito penetrante” (“Isso pode indicar que estamos realmente vendo uma nova classe de partículas subatômicas que é muito penetrante”).

Isso nada mais é do que especulação pessoal sem evidência alguma, não incluída no artigo e claramente feita para chamar a atenção. Aparentemente, isso não aconteceu para a satisfação de Gorham; mais tarde, em outra entrevista, ele comentou com um jornalista da New Scientist que essa nova partícula imaginária deveria violar a simetria do CPT (carga, paridade e reversão do tempo).

DERIVAÇÃO INCOMUM. Sem querer, o New Scientist, em sua edição de abril, alimentou as notícias falsas com um artigo muito especulativo.

 

New Scientist publicou esse ano um artigo popular sobre multiversos, com muita física teórica especulativa, no qual são mencionadas conjecturas que violam o CPT. Então, um tabloide de Bangladesh, o Bangladesh Dhaka Tribune, publicou uma nota relacionando os universos paralelos ao neutrino tau e dizendo, inacreditavelmente, que a alegação de que a partícula veio de outro universo foi feita por “cientistas da NASA”. De onde veio a NASA se Gorham é da Universidade do Havaí? Bem, a pobre NASA financiou parte do instrumento que fica no balão ANITA.

Daily Star lançou a suposta reportagem numa página com mulheres nuas e citando, não o Dhaka Tribune, mas o artigo de vários universos da popular revista New Scientist.

CONFUSÃO. O Daily Star citou uma fonte diferente daquela que enganosamente ligou a NASA às especulações de Gorham.

 

Nesse ponto, os dois eventos detectados pela ANITA são chamados de “eventos impossíveis” e, além disso, “provêm de outro universo”. Portanto, as notícias, que nesse momento envolveram meu amigo e colega Luis Anchordoqui, de Nova York, como um dos teóricos da violação do CTP por essas partículas que já viajam no tempo, são divulgadas por jornais e sites de todos os tipos.

Há várias lições a serem aprendidas com tudo isso. Na minha opinião, as mais importantes são:

  1. Se você é um cientista e deseja chamar a atenção para o seu trabalho, não seja irresponsável e não especule descontroladamente. Não seja infeliz.
  2. Se você é jornalista, não publique qualquer coisa. Consulte primeiro alguns especialistas.
  3. Se você é usuário da web e dos serviços de notícias, não acredite em alegações extraordinárias que não sejam feitas pelas fontes mais confiáveis, como Academias de Ciências e organizações científicas de prestígio.
  4. Suspeite de qualquer coisa que diga “Cientistas da NASA descobrem…”. Se for verdade, a NASA dirá a você.
  5. Tente não ser bobo. É difícil, mas pode.

Tradução ao português: Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira.

Versión de este artículo en español, aquí.

Gustavo Esteban Romero

Gustavo Esteban Romero es Investigador Superior del CONICET y director del Instituto Argentino de Radioastronomía.


Prohibida la reproducción total o parcial, por cualquier medio, de los textos publicados, excepto por autorización previa.

La revista Pensar y el Center For Inquiry no son responsables por las opiniones, ideas y otras expresiones vertidas por los autores de artículos, notas, reseñas y otros textos aquí publicados.